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AOS POSSÍVEIS SABIÁS
Alguém que não conheço, após ver as bolhas de sabão que soprei a
propósito dos adolescentes, concluiu que eu devo ter alguma coisa contra
eles: "O Rubem não gosta dos adolescentes".
Há uma pitada de verdade nisso. E os pais concordam comigo: se eles ficam
sem dormir por causa dos seus filhos é porque há algo neles que eles
não gostam. Se gostassem, dormiriam bem e não procurariam terapeutas em
busca de auxílio. A vida é mais complexa do que gostar ou não gostar: that
is not the question. A questão é gostar e não gostar, ao mesmo
tempo. É isso que faz sofrer.
Imaginei que esta pessoa, se visse Michelangelo furiosamente atacando o
mármore a martelo e cinzel, perguntaria também: Afinal, que tem
Michelangelo contra o mármore?
Sim, ele tem muito contra o mármore. Porque dentro dele está guardada a Pietà.
É preciso não ter dó do mármore para que a Pietà saia do seu
túmulo. O amor, por Pietà, não tem pietà... Onde estaria
a Pietà se Michelangelo tivesse sido complacente com o mármore?
Educação é arte. E não existe nada mais contrário à arte que deixar
a matéria-prima do jeito como está. Só fazem isto aqueles que não
sonham. Mas, desgraçadamente, os sentimentos de culpa paternos e maternos
transformam-se em complacência, e seus martelos e cinzéis transformam-se
em gelatina. A pedra continua pedra. É preciso que se saiba que o amor é
duro. [Texto extraído do livro
E aí? Cartas aos adolescentes e a seus pais, de Rubem Alves]
[Colaborou o CL Sergio
Bueno, do Lions Clube Cidade de Ourinhos]
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